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Este deverá ser um espaço onde amigos compartilhem suas criações e as discutam. Se desejar entre em contato para discutirmos o desenvolvimento do blog e participações. delbenbr@hotmail.com

sábado, 2 de outubro de 2010

Estou perdendo tudo


Estou perdendo tudo. Eu trinco, eu racho, eu caio aos pedaços. Acumulei tantas coisas no fundo dos olhos! Há tantos sons sonantes e dissonantes armazenados nas cavernas dos ouvidos. Os sabores que tive, tenho e terei rolam entre o céu da boca e a terra da língua. As pulsões atemporais se agarram com unhas e dentes no baixo ventre. Tudo isto era completude e fragmentação. Agora são vãos tesouros ainda desejados.
A solidão é quando se vão ou quando me afasto? Na distância além não me acho e me encontro quando me distancio aquém. Mas a barreira de todas as coisas me deixa de fora para fora.
Estou perdendo o saber. Das luzes acumuladas atrás do fundo dos olhos só sai perplexidade, tristeza e um pouco de ternura. Dos sons guardados no mais fundo que o fundo do ouvido, da caverna desconhecida para além da garganta, saem algaravias, dúvidas ou silêncio. Quando falo é outro que fala e quando olho nem sei.
Estou perdendo a liberdade. Os pedaços de lama ressequidos ao sol do tempo, conceituados de todas as coisas acumuladas, se desprendem de minha pele abandonados pelo caminho. Quanto mais caio aos pedaços, mais de mim aprisionado me acho. E eu sou tirânico.
Estou perdendo a capacidade de definir. Aguardo agora com tristeza a definitiva conclusão.

sábado, 18 de setembro de 2010

O que no poema não há é o mais importante que há.


José Renato
18/09/2010
Ver luz intensa na escuridão de um poema.
Adquirir sabedoria na ilógica dos versos
tortos em linhas mosaicas, tão certas.
Encontrar felicidade no profundo poço,
estagnado em cinza chumbo na alma.
Estar tão cheio e completo
que o vazio preenche cada vilosidade
do nada.






José Renato
18/09/2010

domingo, 29 de agosto de 2010

Vosso

Você? Você!
Vou ser,
ser vosso,
vosso servo,
sem voz.
José Renato
29/08/2010

domingo, 22 de agosto de 2010

Óbvios

Um bom omelete se faz quebrando alguns óbvios.

José Renato
22/08/2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Bonsai

Ontem aniversariei. Fiz tantos anos que possuo uma grande paisagem para apreciar pela qual atravessou meu caminho, já bem maior que a paisagem que vejo adiante. Sou mais afeito hoje a pensar e repensar o caminho do passado e os caminhos do futuro. Acho que é da idade. Mas....
Um grande amigo não trouxe vinhos desta vez, que teria aberto no ato e apreciado com amigos e amigas comungando nossas vidas e caminhos. Trouxe-me um bonsai. Que lhe deu para me presentear com isto? Adoro jardins, mas não cuido deles e um bonsai precisa de cuidados especiais. E especialmente nem de mim cuido bem. Só serviu para demonstrar o seu apreço e provocar coceiras no orgão pensante. Me “garrei” pensando na miséria daquele ser vivente e na sua contraparte plantada no quintal.
Aquela planta era o simbolo perfeito de dedicação disciplinada à estética. Havia muito amor à arte naquilo, mas pouco amor à planta em sí. Tinha sido escolhida com muito cuidado e apreço e era uma peça de beleza rara. Pequenina, saia de um pequeno torrão de terra em forma de uma miniatura de monte coberto com musgo. Retorcia-se em curvas elegantes até gerar minusculos galhos floridos também graciosamente curvados. O artista guiou seu desenvolvimento rigorosamente para simular a falta de simetria da natureza, mas tornando-a elegante e bela. Contrariou todos os potenciais inatos daquele ser para torná-lo mais perfeito do que seria. Via-se claramente que era artificial
A mangueira da mesma espécie e idade do bonsai plantada no quintal, por outro lado, é enorme e cresceu como quis. Todo ano “suja” o quintal com folhas, flores ou frutos caidos. Estes resíduos do seu crescimento e fertilidade se decompõem, cheiram e atraem insetos e pássaros. Estamos sempre em risco de receber uma manga na cabeça e, mais raramente, um galho se o dia for ventoso. Está sempre nos dizendo: cuidado comigo. Mas, quando é época de nos dizer o quanto é generosa se carrega de frutos e nos dá mais do que podemos receber. Cresceu como quis e faz o que quer, até uma calçada tentou levantar e tivemos que reprimi-la com ferramentas. Abusada e cheia de personalidade, dá trabalho. Faz sombra também sobre musgos, como o bonsai, mas também sobre nós e sobre outras plantas. Abriga pássaros, insetos e pequenos animais. É rica em defeitos e qualidades, mas uma qualidade posso garantir que não possui: a estética.
É certo que teve que ser podada algumas vezes, mas só se os galhos estivessem crescendo para qualquer lado que a prejudicasse ou aos outros moradores da casa. E isto sem cuidados especiais, cortava-se e pronto. Certo também que teve que ser regada e adubada em sua fase inicial de crescimento. Depois que cresceu virou-se sozinha. Água teria que vir das profundezas do solo, luz das alturas do céu, podas da generosidade do vento. Mas todo o seu potencial foi deixado realizar-se mesmo que crescesse certo aqui e torto ali, como devia ser. A falta de solo de um bonsai a torna raquitica, pobre, inválida, perfeita.
O que faz alguém preferir uma pequena árvore? O medo do seu tamanho potencial, e isto é fragilidade? A preferência por um trabalho criativo que a faz apreciar a sua própria criatividade e não a da planta, e isto é egoísmo? O prazer de moldar a natureza segundo sua própria vontade, e isto é prepotência? O gosto exclusivo pela beleza pura, e isto é descuido?
Não sei o porque, mas me dá uma pena enorme.

José Renato 09/07/2010

domingo, 9 de maio de 2010

Num dia é assim,
n'outro é assado.
Num dia é afim,
n'outro, passado.

José Renato, 09/05/2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Há brilhos

No meu olhar há brilhos. Há brilhos de infância, de juventude fora dos trilhos em paixões e ansias, de entusiasmo juvenil pela conquista intelectual do mundo, de paixões mais densas e vermelhas de homem e amor vibrante, de sonhos loucos de maturidade e amores calmos contraditando e de entendimentos e revoltas, e de tantas coisas que fazem vibrar o coração, a mente e a alma de um homem.
Hoje, no meu olhar, há brilhos mais intensos que nunca. São aumentados por pequenas lentes líquidas formadas pela consciencia dos fracassos e uma tristeza infinita, que magnificam todas as dores e prazeres de uma vida.
Agora, até nas minhas faces há fios de luz perturbados por escuridão. São correntes que lavam e trazem para fora partes da minha Sombra.

José Renato
02/04/2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

Beleza

Há a beleza! Vemos um por do sol colorido de dar dó de sua brevidade e pensamos que é uma benção de Deus ou da natureza. Um campo florido, ainda mais se cultivado, gera extases e achamos ser uma dádiva. Ao contrário se há secas ou enchentes, tempestades, frios e calores em excesso achamos que é castigo pela maldade humana e há feiura. Nascimento é belo e morte é feia, mas vida é nascimento e morte.
Tudo é absolutamente belo porque a finalidade de tudo é para que apenas Um se divirta. Basta definir este Um. Clarice disse algo parecido com: se formos felizes, e depois? Há o que? Há que mudar tudo o tempo todo. E o Homem?! Bah, o Homem!
José Renato 04/03/2010

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Hoje me dói

Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste.

Não há sossego - e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter.

Fernando Pessoa - Bernardo Soares



Hoje me dói.
Me dói uma dor que dói em mim.
E não sou mais que isto.
Dói tamanho que nem sei.
Há uma fratura.
Tão eu que há abismo.
Ninguém mais há,
Deus há a distância.
Deserto. E Oásis eu não sou.



José Renato Delben, 18/02/2010

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Coração tapera

Uma tapera não tem trinco, não tem tramela nem cadeado. Tem frestas, buracos pelas quais o sol e a lua desenham arabescos no chão e paredes. É uma morada maravilhosa para o que é livre e incontido, como o vento que hora repousa hora corre célere. Que melhor lugar para o precioso morar que num coração tapera. Tão pobre que não possui brilhos além daqueles do sol e da lua. Que não tem adornos. Que deixa vazar e extravazar para dentro e para fora seus tesouros

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Onde?

Longe
tão longe de nós.
talvez entre as nuvens da INCERTEZA.
Lia Noronha




Ele estaria nas entrelinhas? No espaço em branco entre os quadrinhos das revistas? No vazio entre uma emoção e outra? No silêncio entre duas notas? Na chama de uma vela que acabou? No final de um suspiro? Dançando com um saci no meio do redemoinho? Onde???

José Renato
09/11/2009

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Geométrico

Ele estava sonhando, só poderia estar sonhando. Quando fora dormir estava tão deprimido em decorrência dos problemas cotidianos que tivera dificuldade para pegar no sono. Como podiam as pessoas arranjar tantos problemas e se digladiarem tanto por tão pouca coisa? Por mais que tentasse compreender não conseguia. Dormira e agora estava em uma paisagem estranha e impossível. Estava em uma praia de areias claras, mas não brancas, que tomava toda a extensão de uma baía bastante larga. A areia se estendia terra adentro por grande extensão num aclive muito suave e se transformava gradativamente num campo gramado que se perdia de vista até começar uma cadeia de serras azuladas pela distância. As cores e formas eram muito realçadas: o mar e o céu azuis, a areia creme, a relva verde e as montanhas azuis acinzentadas eram mais azuis, verdes ou claras que qualquer outra paisagem que havia visto.
Uma pequeníssima comunidade de casas muito brancas, quase todas aproximadamente cúbicas, com arestas bem definidas, se situava sobre o imenso relvado. Aquelas pequenas casas, todas térreas, pareciam não construídas, mas sim, recortadas de um bloco maciço formando um conjunto de aspecto uniforme. Mesmo as portas e janelas possuíam cantos, sem batentes, bem definidos. Não havia ninguém pelas ruas e eram muito estranhas aquela quietude e imobilidade universal sob um sol muito claro em um céu sem nuvens. Não havia nem vento nem pássaros. Senti-me em grande paz, numa alegria luminosa, conferida por uma luz natural que não feria os olhos, um ar fino e revigorante e uma temperatura tão adequada que não percebia a própria pele.
Em grande perplexidade e curiosidade percorri um caminho de cascalho branco até uma casa central localizada no que parecia ser uma praça. Esta casa era ligeiramente maior que as demais e poderia tanto ser um templo quanto um centro administrativo. Fui entrando por uma abertura sem porta não maior que as das portas comuns. A casa possuía apenas um ambiente e, assim como no exterior, todas as superfícies apresentavam a mesma cor branca e uma textura totalmente lisa, sem adornos, frisos, rodapés, nada. Assim que entrei presenciei a cena mais estranha que possa me lembrar. No centro da casa havia muitas pessoas. O número exato delas não era possível determinar, devido à própria condição em que se encontravam. Eram pessoas de todas as idades, raças e aparências: todos os tipos humanos estavam ali representados. Era um grupo de pessoas amontoado compactamente e não se via espaço entre elas. Mas não estavam de pé e nem mesmo paradas. Estavam sim amontoadas formando o que parecia ser um novelo e se moviam constantemente de forma que o embolado que formavam nunca tinha a mesma aparência. Aquilo me pareceu tão estranho e confuso que até a clareza geométrica do ambiente parecia ter se perdido pela minha falta de atenção a ela. Procurei então buscar a causa deste comportamento tão insólito e me aproximei um pouco. As pessoas estavam interagindo de todas as formas, mas, principalmente estavam se digladiando, disputando espaço para permanecerem mais à superfície do bolo. Inúmeras delas arranhavam, puxavam, empurravam e mordiam as outras e então percebi que umas acabavam tirando pedaços das outras num processo sem tréguas e sem pausa. De repente uma delas arrancou um olho de outra e com um fio de carne que pendia tentava atar as mãos da outra. Senti enorme horror pela situação, mas, mesmo assim não pude tirar os olhos das pobres criaturas ali presentes. Percebi chocado que não eram pessoas especiais ou incomuns, eram pessoas normais ali representadas. Não eram nem boas nem más segundo o senso comum e estavam ali vivendo simbolicamente suas vidas cotidianas.
Depois de ter visto tanta beleza e paz no caminho até aquele ambiente, o que proporcionara alívio e serenidade para minha alma tão torturada, não era justo presenciar aquela cena. A que me servia ter presenciado tanto horror e tristeza? Por que, meu Deus, tanto caos e despropósito na vida humana? A que atendiam nossos instintos reptilianos, nossas emoções de mamíferos e nossa pretensa razão humana se estavam a serviço desta eterna guerra despropositada? Quis sair dali, fugir, e não pude. Um torpor em minhas pernas e uma fixação forçada da minha atenção me obrigaram a continuar presenciando aquela cena dantesca. Para meu horror as pessoas começaram a ficar descarnadas e pedaços eram arrancados, lançados para fora do bolo e desapareciam. Por fim até os ossos foram lançados fora. O processo foi chegando ao fim e as pessoas foram desaparecendo, mudando de aparência na realidade, e ficaram agrupadas suspensas no ar inúmeras formas geometrias planas, ligeiramente luminosas e transparentes. Havia triângulos, círculos, elipses, quadrados, etc. de todas as cores e tamanhos em eterno movimento se tocando e colidindo. Agora não mais tiravam pedaços umas das outras, mas sim, sons puros e cristalinos de diversos timbres quando se entrechocavam suavemente. Uma suave melodia pairava no ar devido aos choques entre elas. Não uma melodia usual, mas aleatória e ao mesmo tempo regular, indefinível na realidade.
Até hoje não entendo o sonho que tive, mas me vem uma imagem Ele estava sonhando, só poderia estar sonhando. Quando fora dormir estava tão deprimido em decorrência dos problemas cotidianos que tivera dificuldade para pegar no sono. Como podiam as pessoas arranjar tantos problemas e se digladiarem tanto por tão pouca coisa? Por mais que tentasse compreender não conseguia. Dormira e agora estava em uma paisagem estranha e impossível. Estava em uma praia de areias claras, mas não brancas, que tomava toda a extensão de uma baía bastante larga. A areia se estendia terra adentro por grande extensão num aclive muito suave e se transformava gradativamente num campo gramado que se perdia de vista até começar uma cadeia de serras azuladas pela distância. As cores e formas eram muito realçadas: o mar e o céu azuis, a areia creme, a relva verde e as montanhas azuis acinzentadas eram mais azuis, verdes ou claras que qualquer outra paisagem que havia visto.
Uma pequeníssima comunidade de casas muito brancas, quase todas aproximadamente cúbicas, com arestas bem definidas, se situava sobre o imenso relvado. Aquelas pequenas casas, todas térreas, pareciam não construídas, mas sim, recortadas de um bloco maciço formando um conjunto de aspecto uniforme. Mesmo as portas e janelas possuíam cantos, sem batentes, bem definidos. Não havia ninguém pelas ruas e eram muito estranhas aquela quietude e imobilidade universal sob um sol muito claro em um céu sem nuvens. Não havia nem vento nem pássaros. Senti-me em grande paz, numa alegria luminosa, conferida por uma luz natural que não feria os olhos, um ar fino e revigorante e uma temperatura tão adequada que não percebia a própria pele.
Em grande perplexidade e curiosidade percorri um caminho de cascalho branco até uma casa central localizada no que parecia ser uma praça. Esta casa era ligeiramente maior que as demais e poderia tanto ser um templo quanto um centro administrativo. Fui entrando por uma abertura sem porta não maior que as das portas comuns. A casa possuía apenas um ambiente e, assim como no exterior, todas as superfícies apresentavam a mesma cor branca e uma textura totalmente lisa, sem adornos, frisos, rodapés, nada. Assim que entrei presenciei a cena mais estranha que possa me lembrar. No centro da casa havia muitas pessoas. O número exato delas não era possível determinar, devido à própria condição em que se encontravam. Eram pessoas de todas as idades, raças e aparências: todos os tipos humanos estavam ali representados. Era um grupo de pessoas amontoado compactamente e não se via espaço entre elas. Mas não estavam de pé e nem mesmo paradas. Estavam sim amontoadas formando o que parecia ser um novelo e se moviam constantemente de forma que o embolado que formavam nunca tinha a mesma aparência. Aquilo me pareceu tão estranho e confuso que até a clareza geométrica do ambiente parecia ter se perdido pela minha falta de atenção a ela. Procurei então buscar a causa deste comportamento tão insólito e me aproximei um pouco. As pessoas estavam interagindo de todas as formas, mas, principalmente estavam se digladiando, disputando espaço para permanecerem mais à superfície do bolo. Inúmeras delas arranhavam, puxavam, empurravam e mordiam as outras e então percebi que umas acabavam tirando pedaços das outras num processo sem tréguas e sem pausa. De repente uma delas arrancou um olho de outra e com um fio de carne que pendia tentava atar as mãos da outra. Senti enorme horror pela situação, mas, mesmo assim não pude tirar os olhos das pobres criaturas ali presentes. Percebi chocado que não eram pessoas especiais ou incomuns, eram pessoas normais ali representadas. Não eram nem boas nem más segundo o senso comum e estavam ali vivendo simbolicamente suas vidas cotidianas.
Depois de ter visto tanta beleza e paz no caminho até aquele ambiente, o que proporcionara alívio e serenidade para minha alma tão torturada, não era justo presenciar aquela cena. A que me servia ter presenciado tanto horror e tristeza? Por que, meu Deus, tanto caos e despropósito na vida humana? A que atendiam nossos instintos reptilianos, nossas emoções de mamíferos e nossa pretensa razão humana se estavam a serviço desta eterna guerra despropositada? Quis sair dali, fugir, e não pude. Um torpor em minhas pernas e uma fixação forçada da minha atenção me obrigaram a continuar presenciando aquela cena dantesca. Para meu horror as pessoas começaram a ficar descarnadas e pedaços eram arrancados, lançados para fora do bolo e desapareciam. Por fim até os ossos foram lançados fora. O processo foi chegando ao fim e as pessoas foram desaparecendo, mudando de aparência na realidade, e ficaram agrupadas suspensas no ar inúmeras formas geometrias planas, ligeiramente luminosas e transparentes. Havia triângulos, círculos, elipses, quadrados, etc. de todas as cores e tamanhos em eterno movimento se tocando e colidindo. Agora não mais tiravam pedaços umas das outras, mas sim, sons puros e cristalinos de diversos timbres quando se entrechocavam suavemente. Uma suave melodia pairava no ar devido aos choques entre elas. Não uma melodia usual, mas aleatória e ao mesmo tempo regular, indefinível na realidade.
Até hoje não entendo o sonho que tive, mas me vem uma imagem de pedras de rio, aquelas dos rios cristalinos que se tornam lisas por rolarem umas sobre as outras pela ação da correnteza de um rio que canta eternamente um hino de adoração ao fluir e ao transformar.
José Renato
2008

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

DEFICIENTE

     Sempre fui deficiente. Deficiente de coragem e abundante em medo. Tive medo do escuro e seus monstros imaginários, medo da morte e seus mistérios e horrores, medo da escola na figura dos outros, medo da rejeição dos amigos e namoradas, dos primeiros e últimos empregos, do fracasso, medo do todo e medo do nada.
 
     Sempre fui deficiente. Deficiente de sabedoria e bom senso. Julguei errado as pessoas e situações. Adotei posturas e ações equivocadas e tolas. Falei muita tolice quando pretendi falar sério. Tomei muitas vezes o caminho errado julgando ser o certo.
 
     Sempre fui deficiente. Deficiente de inteligência. Percebi mal o mecanismo do mundo. Interpretei mal as ações das pessoas e seus sentimentos. Modelei errado o meu papel no mundo. Todos os frutos do meu pensamento foram obtidos com enorme dificuldade e foram frustrantes.
 
     Sempre fui deficiente. Deficiente de sentimentos. Sempre procurei o amor dos outros e nada achei. Desconsiderei o meu guardado onde nenhum outro alcança e acessa. Confundi todos os tipos e espécies de amor, troquei uns pelos outros. Troquei a sua plenitude pelo vazio da fome.
 
     Sempre fui proficiente. Abundante em más ações e piores reações. Rico em mágoas remoídas, mastigadas e guardadas avaramente. Repleto de desejos e anseios malsãos. Cheio de vícios e compulsões. Sempre célere em julgar, sentenciar e penalizar.
 
     Hoje que sei o que fui, o que sou e talvez o que serei não consigo me colocar acima do mais baixo dos seres humanos. Busco, com sucesso relativo, dar o braço ao sujo e ao roto para andarmos juntos. E não sei mais quem está ajudando quem.

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José Renato, 21/08/2009