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Este deverá ser um espaço onde amigos compartilhem suas criações e as discutam. Se desejar entre em contato para discutirmos o desenvolvimento do blog e participações. delbenbr@hotmail.com

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

DEFICIENTE

     Sempre fui deficiente. Deficiente de coragem e abundante em medo. Tive medo do escuro e seus monstros imaginários, medo da morte e seus mistérios e horrores, medo da escola na figura dos outros, medo da rejeição dos amigos e namoradas, dos primeiros e últimos empregos, do fracasso, medo do todo e medo do nada.
 
     Sempre fui deficiente. Deficiente de sabedoria e bom senso. Julguei errado as pessoas e situações. Adotei posturas e ações equivocadas e tolas. Falei muita tolice quando pretendi falar sério. Tomei muitas vezes o caminho errado julgando ser o certo.
 
     Sempre fui deficiente. Deficiente de inteligência. Percebi mal o mecanismo do mundo. Interpretei mal as ações das pessoas e seus sentimentos. Modelei errado o meu papel no mundo. Todos os frutos do meu pensamento foram obtidos com enorme dificuldade e foram frustrantes.
 
     Sempre fui deficiente. Deficiente de sentimentos. Sempre procurei o amor dos outros e nada achei. Desconsiderei o meu guardado onde nenhum outro alcança e acessa. Confundi todos os tipos e espécies de amor, troquei uns pelos outros. Troquei a sua plenitude pelo vazio da fome.
 
     Sempre fui proficiente. Abundante em más ações e piores reações. Rico em mágoas remoídas, mastigadas e guardadas avaramente. Repleto de desejos e anseios malsãos. Cheio de vícios e compulsões. Sempre célere em julgar, sentenciar e penalizar.
 
     Hoje que sei o que fui, o que sou e talvez o que serei não consigo me colocar acima do mais baixo dos seres humanos. Busco, com sucesso relativo, dar o braço ao sujo e ao roto para andarmos juntos. E não sei mais quem está ajudando quem.

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José Renato, 21/08/2009

terça-feira, 28 de julho de 2009

Não poema e não prosa

I piccoli poveri di Assisi desejou tanto a pobreza que esta se tornou o seu inestimável tesouro. Beijou de maneira neurótica o leproso na boca. A dúvida me atormenta. O que é a verdadeira pobreza que nos aproxima do amor? A pobreza ostenta a pobreza? Um verdadeiramente pobre escreve poesias?


Eu não, eu - 28/07/2009

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O mar do amar

O mar me assusta.
Não tem calçada, não tem rua,
não tem onde colocar meus pés.
Se eles flutuam o tempo todo perdem a planta,
somem os solados,
mas não nascem nadadeiras.
O mar do amar não dá pé.
Afundo, bóio, nado.
Mas não sou peixe e logo me canso.
Vim do mar faz tempo,
perdi a memória natatória.
E o mar do amar é fundo,
não dá pé.
Respiro líquido somente no útero materno,
no mar preciso nadar sobre as ondas pra respirar.
Uma contradição.
Como amar sem mergulhar profundo?
Eugênia Amaral

sábado, 25 de julho de 2009

Rei vermelho

Alice nos disse que foi para o inverso,
grande tolice, para explicar o verso.
Sonhou com o Rei com o verso a sonhar
O verso acabar é da lei se o Rei acordar.
Se Alice acorda o inverso finda
e Alice no verso será ainda?
É sonho o que sonha o sonho que sonha?
Meu Deus que ilusão medonha!
O verso e o inverso são um no diverso?
Me expliquei nos meus versos?

José Renato
25/07/2009

The Red King Sleeping (rough draft) por kenneth_rougeau.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Zequinha

Será que todos lembram da primeira grande decepção ou desilusão. Não sei, mas todos mantêm vivida na memória uma grande desilusão que pensam ser a primeira. Zequinha tinha a sua.
Zequinha fora sempre um menino muito sonhador, sempre às voltas com seus livros de contos de fadas e depois de aventuras juvenis. Não era muito falante ou comunicativo vivendo em um mundo muito particular. A não ser as turras com irmãos e pais pouco falava. Se falava era apenas o trivial para pedir ou reclamar de coisas. Se precisasse conversar, não conversava. Lembra-se até hoje do sentimento predominante durante um período determinado de sua infância, solidão. Por outro lado, sempre acabava brigando com todo e qualquer um que invadisse o seu espaço particular.
Certo dia, num domingo, foi com seus pais para o sítio de um seu tio-avô que ficava na periferia da cidadezinha na qual havia nascido. Isto se deu quando ele tinha seus dez anos de idade, tanto quanto podia lembrar. Nestas ocasiões seus avós e vários tios e tias-avós bem como tios, tias e primos se reuniam em grandes almoços barulhentos em torno de uma grande mesa composta de tábuas sobre cavaletes dentro de um galpão. Como o número de irmão e irmãs dos avós era muito grande era óbvio que muitas avós compareciam ao almoço e ajudavam na preparação da comida. A mesa posta apresentava uma fantástica quantidade e variedade de comida da vovó do sítio. Enquanto as mulheres trabalhavam na cozinha os homens matavam e depenavam galinhas, angolas e patos; matavam porcos, pelavam e descarnavam preparando lingüiças, chouriços, etc. E, enquanto faziam isto, bebiam suas cervejas e suas pingas de tal forma que bem antes do almoço começar já todos estavam falando alto coisas pouco sérias e rindo muito.
As crianças tinham que não atrapalhar e, portanto, não tinham muito que fazer. Zequinha não podia se lembrar de muitas ocasiões em que havia outras crianças para brincar. Não possuía nenhum primo ou prima de sua idade no ramo da família destes seus avós. Ele invariavelmente sentia-se muito solitário. Ficava zanzando por perto da casa porque também não tinha permissão para se afastar muito já que por mais prosaico que seja um sítio sempre há coisas perigosas para uma criança pequena. Ele ficava observando os animais, as coisas e locais do sítio sempre fascinado por tudo.
O sítio ficava em uma encosta suave e parte do topo de uma pequena colina. A casa, o galpão, a pocilga, as construções enfim, ficavam quase no topo da colina quando o terreno começava a ficar plano. A pocilga, o local de ordenha das vacas, a pequena coberta onde se matavam, escaldavam e pelavam porcos ficavam na parte de trás da casa na direção de colina abaixo. Logo em seguida vinha o pasto bastante extenso para ambos os lados e que acabava no final da encosta em um pequeno rio margeado por uma mata. Mas o que mais chamou a atenção de Zequinha naquele dia foi o campo de cultivo que se situava à esquerda da casa distante uns duzentos metros e logo após uma pequena plantação de eucaliptos. Ele passou parte da manhã a olhar aquele campo admirando a sua beleza.
No campo existia uma plantação de alfafa de um verde azulado tão homogêneo e fechado que mais parecia um tapete imenso de rara beleza. Quando batia o vento ligeira ondulação percorria todo o campo formando figuras variáveis e muito bonitas. Na inocência dos seus dez anos Zequinha passou a imaginar-se correndo e se jogando sobre o solo coberto com tão magnífica cobertura. Quão maravilhoso não seria sentir-se sobre aquela maciez verde. Deveria ser como andar sobre nuvens sem sentir a aspereza do solo, a secura da terra. Seria o paraíso viver naquela perfeição. Teve fé pela primeira vez na vida na existência do paraíso e, ainda por cima, aqui na Terra.
Tão desejoso ficou de vivenciar o seu sonho que esperou todos dormirem depois do almoço e, desobedecendo a seus pais, partiu para explorar aquela parte do sítio. A própria tomada de decisão e realização da caminhada até o campo de alfafa foi uma aventura cheia de mistério. Com o sol a pino e sob um calor intenso caminhou em direção ao manto verde com o coração aos pulos e felicidade antecipada. À medida que se aproximava do local foi percebendo que o verde não era tão homogêneo como imaginava e o princípio de um desconforto se instalou em seu peito. Quando adentrou a plantação viu o solo sob as plantas tão áspero e quente quanto fora dela e os seus pés descalços doíam quando pisava nas plantas que possuíam caules finos e duros. Não foi muito adiante. O vazio e perplexidades que sentia o paralisaram e um pensamento precoce passou pela sua mente: “a perfeição só existe de longe e nunca pode ser alcançada”.
Desde então começou a procurar o campo de alfafa perfeito aonde fosse e com quem estivesse. A partir daí colecionou uma seqüência de desilusões, coisa dispensável se tivesse aceitado a conclusão inicial pelo coração e não somente com o intelecto. Procurou primeiro na sabedoria que perseguiu tenazmente até entender que era por demais falível para adquiri-la. Procurou depois nas religiões até perceber que era por demais crítico para ter fé incondicional. Procurou nas mulheres durante muito mais tempo e mais intensamente que nas demais possibilidades até perceber que a união de dois falíveis não poderia produzir interações perfeitas.
Na juventude se juntou a tribos em cujo convívio todos os enigmas, mistérios, dúvidas, medos e desilusões eram mascarados por conversas ruidosas, músicas cacofônicas ou melódicas em alto volume e festas regadas a cerveja. Os sonhos cor de rosa de romance e aventura com muito sexo, viagens e fartura ainda existiam. Para sempre aqueles jovens diriam que aquela tinha sido a melhor época de suas vidas, mas pensariam secretamente que também a pior de todas. Os sonhos e amores nasciam como espinhas em rosto de adolescentes, no entanto ao contrário destas gerando prazer quando nasciam e frustração quando morriam.
À medida que envelhecia passou a conhecer melhor os amigos e os amores e todos os seus defeitos e insuficiências passaram a ser percebidos; não eram diferentes dos seus. Percebeu que, assim como ele, todos buscavam no outro a fonte de sua felicidade e se esta não se cumpria a culpa era sempre do outro. Os conflitos, as cobranças, se multiplicavam na busca de transformar o mundo num lugar de perfeição pela ação do próximo. Dores, feridas, cicatrizas e desilusões se multiplicaram.
A consciência de sua mortalidade se tornava cada vez mais forte. E a inutilidade daquele tipo de vida se tornava cada vez mais evidente e se viu num beco sem saída. Para seu desespero ninguém tinha resposta para suas angústias, pois estavam no mesmo barco da ignorância. Os jovens de outras tribos, outros costumes e moral estavam cometendo os mesmos erros mascarados sob outras músicas, roupas, brincos e cortes de cabelo. Os mais velhos, quase todos, evidentemente não tinha descoberto o grande segredo.
Um dia alguém lhe falou de uma nova ciência: a ciência da paz, a paciência, que conferia serenidade. Ele procurou então o cientista que inventara esta ciência e um professor que a pudesse ensinar. Mas todos a conheciam mal e de segunda mão, e nenhum a podia praticar perfeitamente. Mas se não havia sábios perfeitamente pacientes como poderia o estado das coisas nas relações coletivas ou particulares ser culpa de alguém e dele inclusive? Descobriu que o princípio básico desta ciência era perdoar. Perdoar diariamente tudo e a todos, o outro e a si mesmo. Só que ele não sabia perdoar, pelo menos não completamente, e não sabia como aprender a fazê-lo.
A Zequinha restou apenas procurar entender e praticar constantemente e confiar no tempo e no vento das mudanças. Depois de um certo tempo começou a enxergar as pessoas como pés de alfafa formando no coletivo uma grande plantação ondulando sob efeito de ventos às vezes fracos às vezes fortes e que se aprendesse a olhar de maneira mais distante, de um novo ponto de vista, poderia perceber a beleza do padrão. Zequinha ainda não é em paz, mas desde então volta freqüentemente a ser aquele menino sentado na soleira da porta olhando o mundo com suas plantações tão bonitas.
José Renato, 199?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Lugar comum

Bastaram alguns telefonemas e saimos para jantar.
Saímos de onde e onde fomos entrar?
Importa? Sair, entrar?
Mudar sempre no mesmo lugar.

E fomos. E falamos de tudo,
de nossas insuficiências, deficiências
e até de algumas indecências.
E rimos, rimos ,...

Falamos de muitas dores,
de muitos amores e
muito dos seus sabores.
E rimos, rimos,...

Falamos de sexos
da falta de nexos
de desejos convexos
E rimos, rimos,...

Falamos de política
da nação paralítica
instituição sifilítica
E rimos, rimos...

Falamos da vida
das muitas tragédias
das muitas comédias
E rimos, rimos,...

Falamos de mim
Falamos de ti
falamos deles
E sorrimos

E reaquecidos
rejuvencescidos
saímos dali
voltamos para nós

Delicioso!



José Renato
08/06/2009

 

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Caminhos

O amar é um mar,
se aprisionar
a uma bússola
contendo todas as rotas


José Renato Delben
03/06/2009

segunda-feira, 11 de maio de 2009

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Linda manhã de domingo

O menino saíra com seu pai e seu tio, apenas pela companhia, que foram conversar sobre assuntos seus de adulto no fundo do terreno da sua casa. O terreno era separado por um pasto enorme quase no meio da cidade por poucos arames mal postos em palanques já comidos pelo tempo. Ele não prestava atenção na conversa. Olhava o céu sem nuvens muito azul, tão limpo que o azul se tornara profundo. Observava também o pasto meio ressequido pela falta de chuva daquele verão tão quente. À sua esquerda, a não muitas quadras de distancia, quase no topo da encosta que começava na estrada que separava seu bairro do centro da cidade, avistava o cinema. Podia ouvir as musicas de domingo que o cinema tocava para toda cidade ouvir nas horas que precediam a matinê. A cidade era muito pequena e parada.
Não era ruim de se viver naquela cidade se fosse criança e possuísse alguns trocados no domingo. Depois do almoço, pelo meio da tarde, toda criança que os possuísse ia à matinê. O almoço de domingo era por si só um grande evento, vinham avós, tios e primos trazendo pratos especiais de cada dona de casa e regavam-se de cerveja. Muita conversa, confraternização e eventualmente discórdia permeavam este almoço. Após uma soneca lá se iam para o cinema as crianças carregadas de bugigangas. De bugigangas sim, pois o cinema não tinha necessariamente o filme como maior atração. Naquela cidade em que o dinheiro era tão escasso e por isso as pequenas inutilidades prioritárias para os pequenos eram relegadas ao último lugar na escala de prioridades dos adultos, o cinema era fundamental. Lá se praticava o comercio de troca de figurinhas e gibis. Os álbuns de figurinhas eram mania entre a molecada. Os temas dos álbuns eram tão variados quanto eram os sonhos da meninada. Havia álbuns sobre os times do campeonato nacional de futebol, suas escalações e craques da época. Outros versavam sobre cantores famosos, carros possantes e filmes de grande impacto. Os álbuns de filmes quando preenchidos reproduziam em quadrinhos a história completa e, na época, os mais procurados foram sobre os filmes Bem Hur e El Cid. As figurinhas eram vendidas em pequenos envelopes lacrados contendo três figurinhas aleatórias que invariavelmente vinham repetidas ficando os meninos com muito mais figurinhas repetidas do que as contidas no álbum. Era necessário comprar muitos envelopes para preencher um álbum de forma que ninguém conseguia preenchê-los. Deste fato surgiu o comercio de trocas. Todos levavam suas figurinhas ao cinema e saiam à procura de quem possuía as que faltavam para trocar. A mesma coisa acontecia com os gibis. Ninguém tinha dinheiro para comprar todo mês todas as revistas que desejava, então se trocavam os gibis já muito lidos por outros no cinema. Que fascinação causavam o Tarzan, o Zorro, o Mandrake, Batman, Super-Homen e os de guerra. A troca por um, dois ou três dependia da raridade das revistas e figurinhas, do estado de conservação e do desejo de possuí-las. A espera pela matinê já tornava o domingo especial e a ansiedade acompanhava as crianças durante o dia todo.
Aquela manhã de domingo, como tantas outras, se apresentava magnífica e enquanto andavam, ouvindo a conversa baixa dos adultos, ouvia-se também e somente, tizius cantando e o som dos passos sobre o pasto ressecado. De repente não se sabe se pela amplidão do mundo só então percebida ou por algo ouvido da conversa sem notar algo horrível aconteceu. Ele se sentiu só, mas de uma solidão tamanha que sentiu vontade de chorar e não chorou. Não haveria remissão no choro, tampouco remédio para aquele mal paralisante. Pela primeira vez na vida sentiu que era ele, só ele, apartado de todos e do mundo. Ele não era um apêndice de seus pais conectado à família indissoluvelmente, ele não era seus pais. Ele ficou só a partir de então mesmo quando junto de muita gente, mesmo fazendo muito barulho em conjunto com amigos. O barulho, a bagunça, a mistura caótica de personalidades jovens nunca mais o fariam esquecer que era ele, só ele. Que inseto horrendo implantou tão pesadas e cinzentas larvas de opressão num coração tão jovem e ficou voejando à espera, zumbindo tão monotonamente e projetando tão escura sombra? Que faz alguém que teve tal sentimento e percepção tão jovem pelo resto da vida? Tem alguma visão redentora posteriormente? Parte à busca de sexo desenfreado? Procura o poder como se fosse um jogo excitante? Torna-se deprimido e apático? Não soube, não sei e talves nunca saiba. Mas na lembrança aquela manhã de domingo era magnífica.


José Renato J. Delben

2007

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O fantástico mundo de Bob

Um gato acaba de pular do meu inconsciente.
Uma imagem que não é nada eficiente.
Penso que meu cérebro é deficiente
Quando acabo de estar catatônico

O mundo não é nada faraônico
Será que estou tomando biotônico?
Ou, talvez, estou ficando afônico.
Meu Deus! Onde está o meu pé?

Acho que eu perdi a fé.
Só quando não tomo café.
Será que estou com chulé?

Será que fui comovente,
No meu poema nada canônico?
Um dia eu compro um coupè.


Luiz Plaça

sábado, 25 de abril de 2009

Encarnação

Para se batizar uma criança deve-se deixá-la mamar em seio farto e depois levá-la para mijar na terra e deixar que ela beba vento.

José Renato
25/04/2009

Infinito


Há uma ponta na meada?
Então há outra doutro lado.
O fio é finito.

Há um c(um)e hierarquico?
Então há uma quadra-base.
A pirâmide é finita.

Mas...

Onde todo nome desaparece.
toda definição esvanece,
o senso comum é absurdo.

Não há substantivos
predicados, pronomes.
Só há verbos.

Todos os verbos são um.
E tudo se submete a tudo

Tudo é e está sujeito

Uuuhhhhhmmmmmmmmmmmm.....

]
José Renato
25/04/2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

Escrever

Escrever? Porque?

Por nada.

Escrever? Para que?

Para nada.

E o nada?

É tudo o que resta.

E já é alguma coisa

E preenche o todo.

E nos completa.


José Renato
23/04/2009

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Labirinto


Helga era uma menina loirinha de cabelos compridos sempre em duas tranças às vezes enroladas no topo da cabeça. Vivia em uma fazenda afastada bem ao norte, região com muitas florestas e montanhas e muito frias. O povo daqueles ermos tinha muitas histórias que se contavam às crianças para evitar que se aventurassem dentro da floresta ou se afastassem muito de suas casas e acabassem se perdendo ou sendo vítimas de animais selvagens. Mas Helga era uma menina muito curiosa em sua grande afetuosidade por gente e bichos. Por estas coisas era muito corajosa e vivia se aventurando nos limites entre as regiões conhecidas e as mais selvagens, sempre à busca de entender os seres vivos e interagir com eles.
Corria por aquelas terras a lenda sobre um monstro que habitava dentro da floresta densa ao norte. Surgira porque sempre que o vento norte soprava trazia sons de urros ferozes. Tão ferozes eram, desesperadamente ferozes, que quando começavam os trabalhadores no campo abreviavam suas jornadas em busca do abrigo de seus lares e suas esposas e filhos os aguardavam ansiosamente trancados. O dia seguinte sempre era de poucas conversas com todos mostrando em suas posturas e fisionomias um alheamento pensativo como se ainda estivessem ouvindo dentro de si aqueles sons, menos Helga.
Helga não tinha lugares tristes do passado onde aqueles sons pudessem fazer eco dentro dela e achava simplesmente que era um animal selvagem agindo de forma natural. Tinha medo, mas o natural frente a uma força superior à sua, o mesmo que teria defronte a qualquer outro animal selvagem. Era sempre a última a chegar em casa nestes dias e ficou muitas vezes de castigo por isto. Mas suas qualidades e falta de medo sempre a faziam se aventurar um pouquinho mais longe.
Um dia, quase às vésperas de completar doze anos, estava passeando pela orla da floresta num dia cheio somente de sons alegres de pássaros e insetos. Foi então que no canto de sua visão avistou um animalzinho branco que não conseguiu identificar porque correu rapidamente para dentro do mato. Ela o seguiu para ver melhor o que era e continuo seguindo durante certo tempo pensando que toca do bichinho estava próxima e não teria problemas em seguir um pouco mais. Mas não conseguiu alcançar o animal e logo viu que não podia continuar e resolveu voltar. Tomou o caminho de volta, segura que logo estaria fora, mas estava demorando demais para chegar à borda da floresta. Não se preocupou pensando ter entrado só um pouquinho mais que devia e que a qualquer momento veria a luz do campo aberto. Este momento demorou a chegar e ela estava começando a se preocupar quando os urros da fera da floresta começaram. Um arrepio gelado partiu de sua nuca, se espalhou por todo o corpo e ficou residindo na boca do estômago. Mas, atrevida, se controlou e continuou na sua busca de uma saída, afinal os urros pareciam estar vindo de muito longe. Depois de certo tempo viu uma trilha e se encheu de esperanças, pois onde há um caminho deve haver uma saída. Mas pouco tempo depois o caminho se bifurcou e foi obrigada a escolher um deles e seguir em frente. Para seu desespero isto aconteceu diversas vezes até que teve a certeza que se encontrava perdida. Os urros da fera se mantinham sem parar em diversos tons e alturas ainda ao longe e um sentimento de desespero e fatalidade foi tomando conta de Helga. Sentou-se desconsolada e chorou alto e nisto os urros pareceram se tornar mais angustiados. Ela parou então assustada achando que a fera podia estar ouvindo o seu choro. Sabia que morreria de fome se parasse a espera de ajuda, ninguém entraria ali para procurá-la. Continuou andando então como único recurso de salvação.
Andou por horas e os sons de fúria e desespero de tanto martelar tomavam conta de seus pensamentos substituindo a razão por irritação e pavor. Já não conseguia escolher os caminhos claramente e tomava aqueles nos quais os urros pareciam menos assustadores. Andou, andou até anoitecer quando exausta escolheu um oco em uma grande árvore onde se encolheu toda e acabou adormecendo quando o cansaço venceu o pavor. Foi um sono cheio de pesadelos nos quais se angustiava para entender o que diziam os urros. Neles tinha certeza que tinha necessidade de entendê-los.
Acordou cansada e tomando consciência da sua situação começou o dia chorando novamente no que a fera fez-lhe coro urrando com aparência de desespero. Começou a andar novamente, mas agora a floresta parecia estar cheia de caminhos que se encontravam e se desencontravam formando um labirinto. Ela tinha então que decidir a toda hora que caminho tomar. Mas, engraçado, parecia que o som da fera era diferente em cada caminho escolhido. Em uns parecia mais raivosos e em outros mais sofridos, raivosos ou desesperados. Mas um ou outro eram sempre terrivelmente assustadores e Helga tinha que decidir sempre se enfrentava a ira ou o desespero. Escolhia então na hora que chegava à bifurcação segundo o que lhe parecia menos desagradável. E assim foi até cerca de meio-dia quando a floresta passou a ficar mais densa e escura e os urros pareciam estar mais próximos. Isto tornava o seu medo maior e ela passou a apressar o passo tentando fugir, mas como num sonho parecia que ia ao encontro daquilo de que queria fugir. Quanto mais próximo pareciam os urros, mais distintos ficavam e então às vezes pareciam apenas um choro desesperado e em outras também de pura revolta. Helga começou a achar que talvez a escolha dos caminhos nos quais os sons pareciam menos desagradáveis poderia estar levando-a para perto do monstro, mas ainda assim não conseguia fazer uma escolha diferente e estava fadada a encontrá-lo, desesperou-se. A tarde avançava já para o seu fim e os urros começaram a parecer apenas vozes ferozes de dor, revolta, medo, expressas em gritos e palavras horríveis e Helga achou que no fim acabaria se confrontando com uma criatura desumanizada, uma humana fera selvagem e possivelmente assassina. Seguia agora como um robô aceitando fatalisticamente a sua sorte e a sua morte. Quando o dia já estava terminando os sons começaram a mudar rapidamente se tornando apenas um choro desesperado misturado a pedidos de ajuda, misturados com palavras de revolta. E ao por do sol a floresta se abriu em uma pequena clareira com uma grande árvore no centro sob a qual se encontrava um menino mais ou menos da sua idade chorando solitariamente em imensa tristeza. Todo o medo de Helga se esvaneceu em pena, tristeza e comiseração. Aproximou-se lentamente do menino e foi vista. O menino continuou chorando enquanto ela se aproximava, mas agora em tristeza calma e com um sorriso nos lábios. Quando ela deu a mão ele disse – “que bom que me encontrou”. Ao que ela respondeu – “você me obrigou”. Depois disto conversaram coisas de criança até adormecerem. Ao amanhecer buscaram e encontraram uma saída da floresta não sem dificuldades, mas não havia mais choro e ranger de dentes. Havia tempo agora até para observar os pequenos animais da floresta.
Décadas depois sentados em suas cadeiras de balanço na varanda voltada para o norte e para a floresta ainda pareciam ouvir muito ao longe um urro quando o vento soprava daquela direção. O que tinha naqueles labirintos das florestas geladas do norte que aprisionavam o choro das crianças misturando-o nas trilhas e transformando em urros e imprecações? E porque após décadas pareciam ouvi-los ainda?


José Renato Delben

20/04/2009